Quinta-feira, 12 de Abril de 2007

 

 

Ela veio com suas calças de ginástica, fixou o banquinho, certificou-se de que não estava bambo, subiu e começou a espanar as prateleiras mais altas. Voavam memórias empoeiradas dos outrora sorrisos felizes, e ela apenas espanava com simplicidade. Achou grandes pilhas de cartas de amor e fotografias enamoradas. Juntou tudo nos braços, desceu cuidadosamente do banco e pôs tudo aquilo numa grande caixa. Foi a vez de seguir pelas paredes com a flanela cheia de água, apagando cada rabisco, cada declaração, cada pedaço de história que teimava em ficar ali. Ela parou, havia muito trabalho ainda por fazer, mas estava funcionando bem. Abriu as gavetas, desenterrou os presentes mofados que estavam lá dentro, colocou-os dentro da caixa grande. Varreu todo o chão, retirando dele as crostas pretas da mágoa, do rancor, da raiva, da decepção e do desgosto. Saiu uma enorme poeira preta. Enorme,negra,disforme,sufocante..Ela espirrou, fez um muxoxo, jogou tudo no lixo. Olhou em volta, estava tudo quase certo. Algumas rachaduras, alguns cantos perdidos mesmo, jamais seriam recuperados...Havia um pouco de bolor e de cacos de vidro espalhados. Mas, estava bem melhor do que antes. E no centro do cômodo havia ainda a grande caixa com as tralhas restantes. Ela sentou-se com as pernas esticadas, respirou fundo, tomou coragem e foi pegando as coisas, as fotos, as cartas, os presentes...Olhava, chorava, rasgava. Olhava, sorria, rasgava. Olhava, balançava a cabeça num misto de dó e saudade ,rasgava Quarenta minutos depois, o que foi amor era lixo. E o cômodo que estava sujo, estava outro. Precisava de pintura, de papel de parede, até de uma reforma quem sabe...mas já não era um lugar esquecido e abandonado.

Mas as coisas acontecem com o tempo, e ela sabia que não se podia querer tudo de vez quando se tratava de uma faxina no coração.

Pegou o saco de lixo e sorriu tranqüila. Teve fé que arranjaria um futuro inquilino compreensivo, que saberia driblar seus medos, suas angústias, suas inseguranças com cuidado, paciência e carinho.

Deu uma última olhada e carregando a caixa do passado e o saco de lixo, fechou a porta do cômodo e foi embora. Era livre, de novo.


música "O amor é como o sol, sabe como renascer.." - Natiruts!

publicado por Juliana Correia às 17:44 | link do post | comentar | favorito

7 comentários:
De Mila a 12 de Abril de 2007 às 21:27
Juuuuuu e seus contos lindos.
Estou te devendo um poema a dois né?
Desse fds não passa.

Beijos linda!


De Luis a 13 de Abril de 2007 às 00:01
manda avisar que esse daqui
tem muito mais amor pra dar!

ÉEEeeeeeeeÉEeEEE!!!!!!!!!!!!!!!11111111111111

:)


De pensepositivo a 13 de Abril de 2007 às 01:20
Eu entendi e gostei do texto, que a garota tinha recordações "não tanto agradáveis", mas eu ainda sou a favor de guardar as coisas de lembrança, sei lá, quem sabe um dia serão úteis... De qualquer jeito, você escreve e descreve muito bem o cenário e a personagem, bjo =]


De Leo a 13 de Abril de 2007 às 15:36
Bom texto, gostei mesmo! =P
Cada um com seu jeito de "dar a volta por cima", guardar ou não essas coisas vai de cada pessoa, o grande desafio mesmo é saber lidar com as lembranças que não podem ser simplesmente rasgadas ou jogadas numa lata de lixo (seria bem mais fácil né?).


De Liu a 14 de Abril de 2007 às 15:37
Juuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu,
Passei aqui para dizer que eu te amo muito e sempre irei te amar!!!
Quero que você saiba que estou aqui para lhe ajudar no que for preciso!!!
Obrigada por tudo...ate pela fotinha linda no orkut...uhauahuahauahuahauhauahuaa,velhos tempos hein?!? Hoje...duas mulheres...como o tempo voa!!!Tudo o que passamos juntas valeu a pena...e hoje sei que você sempre estar comigo...mesmo "distante"""
Se cuida!!!
Bjos!!!


De Vinicius a 14 de Abril de 2007 às 17:51
"...o que foi amor era lixo." =~
será que seria livre mesmo?
anyway, belissimo conto, já disse pra voce escrever um livro, espero que voce quando comenta o assunto nao esteja sendo ironico (coisa que voce é boa parte do tempo) aiuahuiahihaui
=********************* beijo!!!


De Juliana a 16 de Abril de 2007 às 19:29
Oiee Ju!
Adorei o conto!
lindo, acho que em cada decepção amorosa que temos fazemos essa faxina no coração, na espera de que alguém o mantenha sempre limpo!

Beijocas linda!


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