Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Eu estava vindo pela avenida, perto de uma hora da tarde, cansada, com fome, tudo engarrafado - daí achei uma brecha de engarrafamento e pude acelerar (e o fiz!) para virar á direita e entrar na rua da minha casa... enquanto eu andava rápido, tinha um carro querendo sair da vaga, de ré, e ir para a avenida. Ele precisava que os carros da avenida freiassem para que ele pudesse manobrar, mas eu? eu estava correndo. Até inclinei meu carro para a pista que ficava mais longínqua dele - lhe dando espaço para ir mais além, mas não lhe dando a chance de fazer o que ele queria/precisava fazer. E eu? Segui meu caminho e vim pra casa. Dei espaço mas não dei chance.

 

Uma cena supérflua, que me fez perceber que é assim mesmo que eu estou sendo com as pessoas nesses dias - estou dando espaço, mas não chance. Escuto o que elas dizem - mas desconsidero, julgo, critico, me agonio por dentro. Me abstenho dos debates em sala para que outras pessoas tenham voz, mas passo quase o tempo inteiro pensando 'quanto blá blá'. Deixo as pessoas tentarem se aproximar, sorrio, converso - mas não realmente deixo elas estarem comigo, em sintonia comigo, perto de mim, vivendo ao meu lado, trocando vivências. Estou chata. Chata e blasé. Desinteressante e desinteressada. Cansada.

 

As vezes só porque é a pessoa X que está falando, eu já desconsidero o que quer que venha - mesmo que a pessoa diga que José Saramago escreveu o melhor livro dos últimos tempos, que o TCA é o melhor lugar de shows de Salvador ou que tudo que Zeca Baleiro escreve merece crédito, acho que sou capaz de discordar.

Se eu acho isso bom? Impossível, né? Acho péssimo. Não basta eu parar para que o carro siga, ou parar para que a pessoa diga.. justo eu, que curso psicologia, que fico me pretendendo como 'trainee' da arte de permitir, compreender e auxiliar pessoas...ouvindo, sem escutar, julgando sem nem ter escutado, nem aí..

 

Pareço mais meiga para disfarçar que ando fria e oca, pareço mais simpática pra disfarçar que não estou dando nenhuma atenção ou valor, pareço mais ouvinte pra disfarçar que já não me sinto tendo mesmo é o que acrescentar, pareço acessível e segura para não deixar transparecer todas as inseguranças que andam habitando, pareço lógica pra não assumir que não faço sentido e por fim, pareço racional para que ninguém desconfie que tenho um coração enorme e transbordante.

 

Em contrapartida é tempo de muita angústia. Todos os dias penso em largar o curso, principalmente as terças e quintas. Todos os dias me pergunto o que diabos estou fazendo ali (ai como é difícil esse exercício diário e imprescindível de auto-crítica!) , quem diabos serão esses meus colegas de profissão e o quê que vai sair dali pra se concretizar aprendizado. Do mesmo jeito que duvido de todos, duvido de mim com relação a alguns - cada dia mais, de modo que não quero apresentar um seminário depois da pessoa #, porque ela é tão inteligente, maravilhosa e sagaz que vai deixar no óbvio exposto que eu nem sei o quê que estou falando ali na frente (!), ou não quero apresentar para professor tal por ter plena certeza de que nada tenho a acrescentá-lo... Haja contraponto, né? Pareço panela sem tampa, no sentido de que no meu degrau da escada estou sozinha, uns estão abaixo ou acima (o que é pífio, porque esse meu critério de 'degralização' não serve, já que os meus olhos estão condicionados a conveniência da preguiça -momentânea, se Deus quiser - de ir além.)

 

Por isso me desculpo com as pessoas queridas: pelos meus conselhos impacientes, pelos meus ouvidos desatentos, pela minha falta de acréscimo ou sensibilidade. Espero que seja uma fase que passe rápido. Por enquanto é meu tempo de passar em branco.

 

Aproveitem o espaço (certamente) - ou a chance (afinal, não percamos as esperanças!).

 


música Lenine - É o que me interessa

publicado por Juliana Correia às 17:30 | link do post | favorito

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