Domingo, 18 de Maio de 2008

Tenho me sentido indisposta com o mundo quase que irrestritamente o tempo todo. Talvez isso se dê porque no meu âmago tenho me sentido insatisfeita todo o tempo comigo mesma também. Não quero crer que meus maiores méritos do momento são notas dez em provas da faculdade. Não quero crer que duas sessões de terapia por semana não estão produzindo as mudanças interiores que eu exteriorizo com eloquência e lucidez dignas dos que querem ser melhores.Não consigo lidar que minha paciência vá se extinguindo como areia numa ampulheta numa velocidade inapropriada para a convivência - e por isso eu em tranco em casa, antes que eu cuspa na cara de alguém por algum motivo abjeto e nada concreto. Não quero crer que, invariavelmente, em frequência acima do tolerável eu me sinto sozinha.

 

Comecei isso da maneira mais fútil que há - tenho amigos do colégio, amigos da faculdade de jornalismo, amigos da faculdade de psiclogia, amigos da vida, amigos dos amigos e alguns primos da minha idade  mas ainda assim, vez por outra, em algum sábado que por milagre eu queria viver ao invés de pensar (pensar tem doído tanto, que abdico do cerébro se cessar meu pranto!) não achava ninguém que pudesse sair comigo para dançar ou para tomar uma tequila. Me senti sozinha diante de amigos que não tinham dinheiro para sair naquele dia, que já tinham outros compromissos, que queriam fazer algo mais light - me senti sozinha e incompreendida quando me deparei frente a frente com o diferente, com o que não sou eu. A culpa do ciclo é minha, claro. Eu me afasto para evitar a agressão gratuita da minha falta de tolerância com a existência banalizada (inclusive a minha - porque viver dentro da minha cabeça é banal DEMAIS) e me sinto sozinha. Quando tento me aproximar, os outros já se afastaram (porque eu os afastei) e eu volto a me sentir sozinha. Isso se agrava e não se encerra. Nem escrever eu consigo...e olha que meu escrever é temperado no desespero e requentado em angústia pura e sublimada - se não doer, não tem graça.

 

Mas hoje me senti ainda pior, mesmo tendo saído com o pessoal ontem mesmo. Estou vendendo meus rins para assistir Blindness, Ensaio sobre a cegueira. Leio as críticas, leio o blog do Meireles, cogito reler o livro... mas não acho com quem dividir todos os sentimentos que esse livro me desperta. Essa falta de companhia na alma dói muito mais do que falta de companhia dos fins de semana. Olho apalermada para um ou outro e narro o quanto eu espero que ele faça um filme claro e sujo ao mesmo tempo, o quanto espero que ele me dê a ânsia de vômito que o livro me deu, o quanto quero que ele "saramaguize" com crueza na tela...E as pessoas me olham como se eu falasse de algo de outro mundo. E vai ver que estou falando... não porque não estou discutindo o créu velocidade cinco ou o sei lá o quê que ande em voga no momento, mas simplesmente porque toda a curiosidade da trabsposição de subjetividades de um livro para uma tela não pode me locomover a lugar nenhum. Mas me locomove. Me move inevitavelmente a solidão de todos os livros que eu li. E de todas as subjetividades que eles ne fazem sentir. E do cansaço que eles me dão do que não se desdobra.

 

Me sinto um pouco personagem de Gabriel Garcia Marquez em Cem anos de Solidão. Comprei o livro em outra fase dessas de solidão esmagadora achando que leria uma saga de branco-vazio e questionamento filosófico existencial - me deparei foi com um livro cheio de personagens que se encontram, convivem, sentem, exasperam em contato com o mundo e com os outros mas em si são apenas sozinhos, são de fato os únicos que se acompanharão vagueando cegos pelo que não sabem e cegos também pelo que sabem. O que fazer? Demorei tanto tempo para entender que no meio de todos esses avança-volta dos personagens entre tantos personagens e anos eles eram sim sozinhos. Demoro tanto para entender que também sou.

 

Não sei o que me leva a escrever essas coisas sobre a minha solidão no lugar mais exposto que há - a internet - mas que diferença faz? Me sentir sozinha é ruim. Mas me achar a minha pior companhia - sendo a única possível - consegue ser ainda pior. Tudo bem. Eu fico aqui sozinha com meus livros do Gabriel. Fico sozinha no divã. Fico sozinha ouvindo los hermanos no carro enquanto dirijo na chuva. Ficarei sozinha na fila de estréia de Ensaio sobre a Cegueira. Arranjarei coragem para ir sozinha assistir o filme novo do Woody Allen.

 

Sobre a solidão e outros pormenores...Eu; sempre eu.


música Caetano Veloso - Nosso estranho amor

publicado por Juliana Correia às 14:33 | link do post | favorito

De Vinicius a 19 de Maio de 2008 às 00:14
"Ficarei sozinha na fila de estréia de Ensaio sobre a Cegueira. Arranjarei coragem para ir sozinha assistir o filme novo do Woody Allen."

E quem disse que você irá sozinha? Se depender de mim, você nunca se sentirá sozinha, porque eu estarei sempre perto de você, mesmo que eu nao esteja fisicamente perto, mas estarei querendo sempre cuidar de você, porque eu me preocupo e, acima de tudo, porque eu gosto muito de você e quero te ver bem, feliz, sem essas indagações filosóficas. Eu sei que fazem parte e me senti durante algumas semanas como você, mas estarei sempre aqui caso precise de alguma coisa. Sempre!


De Luis a 19 de Maio de 2008 às 17:16
a gente é tão desesperado nessa busca de se pertencer a alguém, de se sentir parte de um mundo que não é só seu, de, enfim, de compartilhar dos sentimentos com outro alguém.. sei bem como é.

-e não ligue pra exposição não, na verdade é a melhor maneira de vc encontrar seus semelhantes. :)


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