Domingo, 9 de Março de 2008

O dia da mulher passou e foi inevitável me questionar sobre esta mulher que habita em mim. Inevitável também foi vir escrever este texto, mas com dificuldade, porque ao falar de mulher ( e de nós mesmas) há margem de clichê é de 97% - e eu não anseio o clichê, na verdade hoje aqui, não anseio nem a generalização.

Essa mulher que habita em mim e que sou eu, portanto, tem medo de muitas coisas - mas certamente não tem receio de reinventar-se. Se é preciso derrubar muros interiores, construir novas paredes, mudar a pintura, remoldurar - sem problemas, eu aguento os trancos da reforma - se a reforma for escolhida por mim. Alardeio os meus defeitos, não engano ninguém e ninguém embarca na minha barca furada sem saber aonde está pisando - sou exigente, cabeça dura, transparente demais, sarcástica e seca, tenho fantasminhas que falam asneiras e muitas outras peculiaridades sim. Tenho consciência de que tudo isso atrai e simultaneamente assusta. As pessoas vêm por isso, e vão por isso. Já assimilei. Essa dualidade já é minha amiga de tempos - com a dor, por exemplo, estreito laços ao limite, não a deixo passar (mesmo que passada) porque sem ela não escrevo - e ao mesmo tempo, sobre ela, debruço piadas inimagináveis nas piores situações. Ao contar minhas histórias tristes, arranco gargalhadas dos ouvintes. E é assim que eu sei ser e vou sendo.

Comigo acontecem as coisas mais improváveis, as maiores voltas da vida e também pequenezas que me fazem diferente. Certa vez, uma amiga se apaixonou por um colega de corredor. Decidimos que ela deveria paquerá-lo por cartas, mas ela não gostava de escrever. Rabisquei muitas e muitas cartas líricas ao rapaz, como sendo ela - e não deixavam de ser dela, afinal. Não deu em nada, mas foi divertido. Já escrevi músicas, roteiros, enredos, poesias para o jornal, discursos na época do colégio. Já fiquei prostrada na cama só querendo entender o sentido da vida - ainda sento, por vontade própria, uma vez por semana no divã do analista, pagando o preço pra saber quem eu sou - e mais ainda, para saber se é possível ser quem eu quero ser. Ainda quero viver com arte, publicar um livro, ser professora, clinicar com Gestalt. Ainda queria me redimir das humilhações as quais me submeti, ainda queria que algumas pessoas me vissem agora.  

 

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Mas, e a mulher? Diz meu querido Vinícius de Moraes que ela foi feita para ser só amor e só perdão. Será? Não sei o que ele pensaria dessa reversão de paradigma. Na década de 70, sucedeu-se a revolução sexual, a liberação sexual. O casamento estável e comum foi trocado pela liberdade de escolha do parceiro, da parceiros, dos parceiros e parceiras, desmarginalizamos o sexo. Hoje em dia a proporção é eloquente. O sexo É o todo. Vivemos na busca do hedonismo eterno - não choraremos, não nos apegaremos, não nada; vivemos o narcisismo coletivo, uma estética individualista que intitula-se pelo "eu mereço". E sempre merecemos coisas que nos dão prazer. Viramos pedaços vistos e analisados. Bundas, seios, barrigas e coxas. Quase um açougue humano na incessável busca pelo prazer, que virou praticamente sinônimo de felicidade.

Trocamos o amor pelo sexo, mesmo. Somos quase obrigados ao prazer. Senão, somos caretas perdidos na Highway. Perdemos a sutileza, viramos robôs feitos para o consumo do desejo alheio - mesmo que este não seja o nosso desejo. O que interessa é o prazer - não importa se ele passa por cima de laços, sentimentos, crenças - quem se importa com a lágrima alheia diante de uma vontade dilacerante do gozo? Quem quer compreender inseguranças perante a possibilidade de ver atrizes se exibindo na TV? O prazer é prioridade absoluta. O desejo é tão obrigatório, tão necessário que se vende em bulas de farmácia. Se você é jovem e não tem tesão no momento, compre Viagra e vivencie o sexo. Simples assim. Tão maquinificado quando "Tempos Modernos", de Chaplin. Estamos virando robôs do nosso próprio anseio - anseio este, que compramos na TV - que digerimos assitindo, que assimilamos que queremos.

Aonde entra a mulher nisso? É ela quem vai ao trabalho se equiparar ao homem, é ela quem cuida dos filhos, é ela quem tem de estar sempre linda desejante e merecendo ser desejada, é ela que vive todos os paradigmas simultaneamente. Como sua avó, tem de estar em casa, corrigir o dever das crianças, levá-las ao médico e comparecer a suas festas infantis. Mas também é ela, totalmente século 21, que tem que trabalhar dois turnos para ter sua independência, para melhorar sua condição de vida, para não se relacionar por "funcionalidades". É ela também que segue a mídia - tem de estar bonita (mesmo depois de toda essa jornada), tem de estar sempre depilada, de unhas pintadas, cabelos bem tratados, com ânimo para um cinema e disposição para o sexo. Aonde fica o nosso desejo? Aonde reprimimos o nosso verdadeiro eu? Aonde vamos parar? No divã da terapia, ou iremos ainda mais além?

Dia da mulher pode ser dia do clichê sim. Mas há de ser o dia que olhemos para as mulheres e as felicitemos. Só elas sabem quantas "milágrimas" custam o milagre, como já dizia Alice Ruiz.


música Incubus - Echo

publicado por Juliana Correia às 12:55 | link do post | favorito

De Vinicius a 9 de Março de 2008 às 14:41
Você ainda me surpreende. Primeiro, eu nao sabia que você gostava de Incubus, sinceramente. Segundo, tem passagens nesse texto que é exatamente você. Eu copiei uma: "Ao contar minhas histórias tristes, arranco gargalhadas dos ouvintes. E é assim que eu sei ser e vou sendo."

E a passagem que você faz uma analogia com Tempos Modernos do eterno Charlie Chaplin cuja genialidade parece ter sido esquecida pelos cinéfilos de hoje e, também, pelas videolocadoras que não estão mais colocando à disposição os seus filmes para serem alugados. Alegam que a procura é muito pouca. Vivemos de todas as formas os males do século 21. Eu nao acho que o prazer seja ruim, afinal de contas, sou um homem deste século, quanto mais prazer, mais eu me delicio. E estou sendo sincero quando falo isso, mas também sei que não devemos basear a nossa vida somente nisso, nao devemos seguir esses moldes que sao impostos e criados pela sociedade, pelo consumismo do capitalismo. As funcionalidades que você se refere é algo que vem desde a Revolução Francesa, passando pela Revolução Industrial, quando o homem achou melhor ser uma pessoa individualista, sendo que cada um na sociedade teria que desenvolver uma função. Essa mesma função é a forma com que nós, seres humanos, somos reconhecidos. É por ela que as pessoas sabem quem nós somos ou forma que pensamos.

Nao sei se estou falando besteira demais, mas tenho pensado muito sobre essa questão atual, voltando o meu pensamento mais para o cinema, como você mesmo sabe. Tenho visto coisas absurdas dentro de uma sala de cinema e o respeito não existe mais. Não sei da onde isso está vindo, quero muito entender.

Mas, enfim, eu já falei demais..

te amo


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