Quinta-feira, 5 de Abril de 2007

Ele a olhou,fitou-a bem fundo nos olhos. Ele quis levantar-se da cadeira, segurá-la pela mão, elogiar-lhe os cabelos, fazê-la compreender a dimensão e o poder do seu sorriso, leva-lá para tomar um sorvete na ribeira, compor canções para ela e colocá-la para dormir todos os dias sob seu repertório particular, acordá-la com o cd de los hermanos e levar-lhe trufas na bandeija, acalentá-la no seu peito - abrigo de todas as horas- na sempre fria e triste tarde de domingo,  carregá-la no colo, fazê-la rolar na cama fugindo da cosquinha,ouví-la cantarolar baixinho, conversar de tudo com ela, da existência espiritual ao big brother, estando a vontade assim. Ele quis declarar tudo que sentia, fazê-la perceber que ela reacendia nele o fogo morto, o desejo oculto de acreditar de novo, de entregar seu coração tão calejado em suas mãos e pagar para ver, de ter "fé e ver coragem no amor", no amor que ele sentia palpitar olhando para ela ali, de violão na mão, dedilhando suave, incosciente dos sentimentos que despertava. Olhou ao redor, haviam tantos que podiam (e queriam) prometê-la coisas...

Ele se sentiu apenas mais um amor platônico. Perpetuou-se na sua solidão. Todos os planos ficaram ali, na sua cabeça. Aonde, até hoje, semanas depois, eles ainda estão.

Será que teria dado em algo? Faltou coragem para apostar.



publicado por Juliana Correia às 17:11 | link do post | comentar | ver comentários (9) | favorito

Terça-feira, 3 de Abril de 2007

"De tarde eu quero descansar, chegar ate a praia e ver se o vento ainda está forte e vai ser bom subir nas pedras,sei que faço isso pra esquecer,eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora...

 

Pôr do sol na praia. Marina olhava por trás das lentes do óculos de grau. Aquele lugar, aquela praia, aquelas pessoas andando, aqueles casais assistindo o sol ir embora, aquelas amigas com seus sorvetes entre sorrisos e fofocas. Ela sentia saudade. Saudade do verão passado,
quando tudo que ela amava estava ali, seus pais casados e juntos, sua amiga do coração ao seu lado vivendo todas as emoções e descobertas, paqueras, noitadas, sorvetes, frescobol..o sabor do verão, o sabor de ser feliz e completa. Aquilo não lhe pertencia mais, se esvaia assim como a areia escorrendo em suas mãos...

 

...agora está tão longe,vê, a linha do horizonte me distrai:dos nossos planos é que tenho mais saudade,quando olhávamos juntos na mesma direção,aonde está você agora,
além de aqui dentro de mim?...


Agora ela estava ali, sozinha. Pensando em como o tempo era algo engraçado,  que quanto mais ele corria, mais longe ficava tudo que ela queria. Lembrou de seu pai. Eram tão amigos,tão unidos, tão companheiros! Aonde aquilo tudo tinha se perdido? Não tinha, ela sabia. Sabia que não era sua culpa ele ter arranjado outra. Mas ela sentia a dor fina de cada ferida do seu coração ao imaginar que perdera seu pai, e talvez pra sempre. Ele não era o mesmo. O outrora atencioso, carinhoso e amigo, hoje só reclamava, que ela só pedia dinheiro, que ela só ligava nas horas erradas, que ela não aceitava a namorada dele...Ela só queria seu pai de volta, ele não compreendia. Como ele poderia compreender sem ouvir? Como ela poderia viver, sem falar? Percebeu que a dor era como mar, ia estar sempre indo e vindo, quando ela visse sorvete de pistache, cavalos ou ouvisse Beatles, ela sentiria o seu pai dentro dela queimando no coração, mas ela iria lembrar que aquele já não era seu pai, e sim mais um Vitor, empresario ocupado, da vida. A dor sempre existiria, ela apenas se acostumaria.

 

...agimos certo sem querer,foi só o tempo que errou ,vai ser difícil sem você porque você está comigo o tempo todo e quando eu vejo o mar, existe algo que diz, que a vida continua e se entregar é uma bobagem...


Não era só aquela saudade que a praia despertava. Ia escurecendo e ela sentia falta também das noites com as amigas, aquelas companheiras de sonhos, de planos, de amores platônicos, das horas amargas e das horas gostosas. Ao se mudar, acabou perdendo contato. Também não as procurou mais, nem as atendeu no telefone. Ela estava passando por um momento difícil e achou injusto entupir as amigas com suas lamúrias e suas tentativas de compreensão. Das amigas trazia no coração a saudade agoniante e no tornozelo a tornozeleira de cavalos marinhos coloridos, que todas tinham iguais. Olhava os cavalinhos e lembrava, o verde era ela mesma, sempre a mais esperançosa da turma, o rosa era Anita, a mais "patricinha", o vermelho era de Thais, a mais romantica e o amarelo de Milena, a mais prática. Ela queria que estivessem ali com ela,que deitassem na areia, olhassem a lua e cantassem músicas bregas. Ela queria...

...já que você não está aqui,o que posso fazer é cuidar de mim. quero ser feliz ao menos,lembra que o plano era ficarmos bem?...


Sua mãe veio chegando até a praia, rosto cansado, mas trazia um sorriso. A levantou e abraçou suavemente olhando as estrelas. Ela pensou naquela mulher tão forte e simples, tão amorosa e tão magoada e quis estar a altura dela.  Quis trazer seus sonhos em uma bandeja de café da manhã, quis dar a ela o cavalo marinho da esperança, fazer juras de um futuro melhor. Mas não fez nada daquilo. Sacudiu a areia do seu short, e a olhou bem fundo nos olhos. Elas sabiam que sempre estariam ali uma para a outra, afinal, amor mesmo só amor de mãe. Deram as mãos e saíram sobre a luz da lua. Nada era fácil, mas elas nunca estariam sozinhas.

 

...- ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos!
sei que faço isso pra esquecer,eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora..."

A música é vento no litoral, legião urbana.

 

 



publicado por Juliana Correia às 16:41 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Segunda-feira, 2 de Abril de 2007

Eu tenho insights de consciência. Fico pensando sobre determinado assunto por um longe período, olhando de todos os lados, culminando todas as possiblidades, até que, do nada, eu tenho um "momento plim" e simplesmente entendo daonde provém a minha dor,o meu medo, o jeito como eu me sinto perante determinada situação.  Posso estar passeando de carro quando de repente me ocorre "é isso, isso e isso". Acho que são as consequências diretas da terapia.

Eu escrevo contos sobre perspectivas femininas porque? Dois simples motivos. Eu gosto de saber sobre o que escrever, e eu sei como uma mulher se sente, ou pelo menos como eu me sentiria. Eu conheço os valores, os sentimentos, as verdades das personagens sobre as quais eu escrevo. Mas, acima de tudo, eu ACREDITO nelas. E eu não acredito em homens. (meninos, lancem as pedras, mas esse é o segundo motivo).Não acredito em menino apaixonado, em menino que diz que ama e que vai amar pra sempre, em menino que sofre, em menino que chora, em menino que se ilude. Não adianta, meninos não me comovem. Eu não acredito que homens tem sentimentos. Num desses insights eu me dei conta disso. E me dou conta todos os dias de como é díficil conviver com isso, porque vai além da perspectiva de um conto. Vira o jeito como eu olho o mundo, vira uma generalização que me tira a fé. Para que comelar, se vai terminar? Para que acreditar, achar fofo, se é tudo mentira absurda, descarada, insosa, só para ferir?

Vamos que vamos, essa terapia semanal tem que destraumatizar, façam rodas de oração por mim, porque só assim os contos daqui vão variar!

 


música O vento - Los Hermanos

publicado por Juliana Correia às 00:57 | link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito

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