Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Tem uma hora, quando você faz análise, muita análise, muita auto-análise até do lado de fora do divã que acontece o ineitável (inevitável?): ficar de bode com a não-análise alheia. Com o amigo que não sabe o que quer, com o namorado que não questiona se é ele que de fato está escolhendo o que está escolhendo e mantendo aquelas mesmas escolhas a que custo, com a mãe que não encara as coisas ou com a amiga que não busca a raiz das coisas, de verdade. Chega uma hora que não dá pra viver de superficialidade, de utilidade, de possibilidade.

A maior arte, pra mim, é a do banal: filmes, livros, quadros, ensaios, roteiros, humoristicos.. que falem da coisa mais simples e mais complexa de todas: o dia-a-dia. Acordar atrasado e fazer o café, perder as chaves do carro, descobrir uma traição, ser assaltado, ser invadido por uma paixão louca, um amor acabando, uma briga de família, um choppinho no fim da tarde, um bode enorme de tudo porque a conta do banco tá devedora, a morte de um amigo, o recebimento de umas flores - tudo isso parece tão simples que muitas pessoas não se dão conta do quanto isso é essencial na nossa constituição, o quanto na verdade nos somos a partir dessas coisas que acontecem enquanto a gente planeja um mestrado, o que vai falar na reunião de negócios, praonde viajar nas férias ou qualquer coisa que o valha. A arte de ver o mundo com outros olhos é pra mim a mais sublime, a mais dificil e a mais valorizada. Preciso me casar com um homem super-muito-mega analisado. Preciso fazer muita analise. Preciso continuar com esse desejo de descortinar, de entender que algumas coisas não descortinarão, de me saber, de me buscar inclusive no que não vou alcançar. Preciso pensar sobre a eminência da morte enquanto viva, preciso entender porque eu não consigo vomitar e porque preciso pedir desculpas até se eu respirar. Preciso entender porque essa impossibilidade em me crer digna do amor/admiração de qualquer pessoa e dessa sensação de farsa que me persegue. Pra entender porque a dificuldade em dar fim ao que obviamente não presta - ao que contraria o que eu tenho de mais importante: as ideologias.

Existem coisas muito mais corajosas do que se deitar num divã, eu sei.

Mas deixa eu curtir a dor e a delicia de ser o que eu sou.

 

 



publicado por Juliana Correia às 21:13 | link do post | comentar | favorito

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