Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Eu acabei de sair da sua casa e ainda tenho o cheiro do seu sabonete nas minhas narinas, nas minhas mãos, um pouco dentro de mim. Toda vez que eu saio da sua casa eu me sinto tão limpa. É como se eu normalmente tivesse um constante cheiro de xixi, de território demarcado pelo xixi alheio, de impureza que tem que sair do corpo para que o corpo continue funcionando e aí, quando eu entro na sua casa, quando eu entro no seu banheiro, tudo se resolve. Porque o sabonete me perfuma e diminui o impacto do cheiro de xixi, porque você me acalma e me limpa e eu me sinto tão pura que tenho ânsia de vômito quando encosto meu rosto na janela da sua sala e vejo aquelas pessoas nas filas das discotecas da tua rua, tantas pessoas, tanto brilho, tanto barulho.. por nada. Ninguém sabe o nome de ninguém. Ninguém vai lembrar do que você disse. E ai eu olho pra você, sentado na poltrona, meio aturdida com a insignificância do que se diz, e você sorri pra mim e estende a mão e me diz: 'se acalma mulher. essa sua vontade de entender ainda vai te tirar o norte'. E eu tenho vontade de responder que se você deixar eu me afogar em você eu não vou querer entender mais nada, que se você for meu sabonete e me deixar tão limpa das minhas impurezas e incertezas eu não dou a mínima para mais nada... mas eu só sorrio de volta.

E você começa a falar dos seus problemas e eu não consigo me concentrar. Como é que alguém tão lindo pode ser tão sintomático? Você descarta a minha utopia de beleza como curativo. Ninguém é mais bonito do que você. E ninguém tem tantos sintomas. E eu sei que você só conversa isso comigo, e eu sei de tanta coisa e eu tenho raiva dessa coisa de ser amiga, de ser só amiga. De saber que é pra mim que você liga de madrugada, é a minha correção que você quer nos seus relatórios, é comigo que você vai jantar em restaurante fim-de-carreira [porque eu sou a mulher maravilhosa que você não precisa impressionar] mas não é comigo que você vai pra cama e nem é pra mim que você manda flores. E aí, quando você para de falar dos seus problemas e me pergunta se eu entendi, e eu estava tão distante, sorrio e beijo a sua mão. "- Vai ficar tudo bem?" Você me pergunta, e eu juro que eu queria dizer que sim, que se você deixasse ficava era tudo ótimo, que eu sei qual é a sua comida favorita e o carinho que você gosta enquanto tá cansado de tanto trabalho...Ou queria dizer que vai dar certo com ela, com qualquer uma, de qualquer jeito, mesmo que elas não te mereçam, não saibam rir das suas piadas sem graça, não saibam entender que você sempre abre demais a boca pra falar e pra dar risada porque no fundo, bem no fundo, você quer conquistar o mundo, engolir o mundo, viver o mundo inteiro pra já ou que elas não tenham paciência de ver um jogo de futebol com você e discutir impedimentos enquanto fazem planilhas que tem que entregar na segunda...eu digo a você que as coisas vão dar certo, e não digo mais nada. E me despeço e vou embora. Vou embora porque tô limpa, porque tenho medo, como posso ser são sua se nunca fui de fato sua? Não sei o gosto do seu beijo, mas sei que o sapato que eu uso é pra você, que a cor do meu esmalte é pra você, que a minha comida japonesa é só pra ver você sorrir do meu desajeito com os palitos... Eu sou tão sua e tenho tanto medo de te perder, e você nunca foi nada meu, nada além do meu melhor amigo, do cara que sabe quantos caras eu beijei, do cara que sabe qual é o tipo de calcinha que eu prefiro usar e faz piada sobre isso (!)...

Eu vou embora com meu cheiro do seu sabonete. Eu vou embora tão limpa que não posso ir em nenhuma boate me esbaldar pra te esquecer, pra me sujar, pra ver se assim eu posso não te pertencer...

Vou pra casa ver televisão. Fazer cálculos estatísticos. Fumar o meu cigarro. Tomar vergonha na cara. Sei lá. Eu vou fazer qualquer coisa que me mantenha longe de você.. e aí me lembro que você mora aqui dentro, das veias, das entranhas, de tudo. 

Tô na fila suja da boate. Amanhã, será que você me empresta de novo o sabonete? 



publicado por Juliana Correia às 16:50 | link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
Setembro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


posts recentes

inferno astral

Descortinado

A arte do impossível.

Pouso.

Nanquim.

Brigitte Bardot

Sapatilhas.

Não é assim que a banda t...

Vulnerabilidade

História musicada auto-ex...

arquivos

Setembro 2010

Janeiro 2010

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

links
blogs SAPO
subscrever feeds