Terça-feira, 3 de Abril de 2007

"De tarde eu quero descansar, chegar ate a praia e ver se o vento ainda está forte e vai ser bom subir nas pedras,sei que faço isso pra esquecer,eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora...

 

Pôr do sol na praia. Marina olhava por trás das lentes do óculos de grau. Aquele lugar, aquela praia, aquelas pessoas andando, aqueles casais assistindo o sol ir embora, aquelas amigas com seus sorvetes entre sorrisos e fofocas. Ela sentia saudade. Saudade do verão passado,
quando tudo que ela amava estava ali, seus pais casados e juntos, sua amiga do coração ao seu lado vivendo todas as emoções e descobertas, paqueras, noitadas, sorvetes, frescobol..o sabor do verão, o sabor de ser feliz e completa. Aquilo não lhe pertencia mais, se esvaia assim como a areia escorrendo em suas mãos...

 

...agora está tão longe,vê, a linha do horizonte me distrai:dos nossos planos é que tenho mais saudade,quando olhávamos juntos na mesma direção,aonde está você agora,
além de aqui dentro de mim?...


Agora ela estava ali, sozinha. Pensando em como o tempo era algo engraçado,  que quanto mais ele corria, mais longe ficava tudo que ela queria. Lembrou de seu pai. Eram tão amigos,tão unidos, tão companheiros! Aonde aquilo tudo tinha se perdido? Não tinha, ela sabia. Sabia que não era sua culpa ele ter arranjado outra. Mas ela sentia a dor fina de cada ferida do seu coração ao imaginar que perdera seu pai, e talvez pra sempre. Ele não era o mesmo. O outrora atencioso, carinhoso e amigo, hoje só reclamava, que ela só pedia dinheiro, que ela só ligava nas horas erradas, que ela não aceitava a namorada dele...Ela só queria seu pai de volta, ele não compreendia. Como ele poderia compreender sem ouvir? Como ela poderia viver, sem falar? Percebeu que a dor era como mar, ia estar sempre indo e vindo, quando ela visse sorvete de pistache, cavalos ou ouvisse Beatles, ela sentiria o seu pai dentro dela queimando no coração, mas ela iria lembrar que aquele já não era seu pai, e sim mais um Vitor, empresario ocupado, da vida. A dor sempre existiria, ela apenas se acostumaria.

 

...agimos certo sem querer,foi só o tempo que errou ,vai ser difícil sem você porque você está comigo o tempo todo e quando eu vejo o mar, existe algo que diz, que a vida continua e se entregar é uma bobagem...


Não era só aquela saudade que a praia despertava. Ia escurecendo e ela sentia falta também das noites com as amigas, aquelas companheiras de sonhos, de planos, de amores platônicos, das horas amargas e das horas gostosas. Ao se mudar, acabou perdendo contato. Também não as procurou mais, nem as atendeu no telefone. Ela estava passando por um momento difícil e achou injusto entupir as amigas com suas lamúrias e suas tentativas de compreensão. Das amigas trazia no coração a saudade agoniante e no tornozelo a tornozeleira de cavalos marinhos coloridos, que todas tinham iguais. Olhava os cavalinhos e lembrava, o verde era ela mesma, sempre a mais esperançosa da turma, o rosa era Anita, a mais "patricinha", o vermelho era de Thais, a mais romantica e o amarelo de Milena, a mais prática. Ela queria que estivessem ali com ela,que deitassem na areia, olhassem a lua e cantassem músicas bregas. Ela queria...

...já que você não está aqui,o que posso fazer é cuidar de mim. quero ser feliz ao menos,lembra que o plano era ficarmos bem?...


Sua mãe veio chegando até a praia, rosto cansado, mas trazia um sorriso. A levantou e abraçou suavemente olhando as estrelas. Ela pensou naquela mulher tão forte e simples, tão amorosa e tão magoada e quis estar a altura dela.  Quis trazer seus sonhos em uma bandeja de café da manhã, quis dar a ela o cavalo marinho da esperança, fazer juras de um futuro melhor. Mas não fez nada daquilo. Sacudiu a areia do seu short, e a olhou bem fundo nos olhos. Elas sabiam que sempre estariam ali uma para a outra, afinal, amor mesmo só amor de mãe. Deram as mãos e saíram sobre a luz da lua. Nada era fácil, mas elas nunca estariam sozinhas.

 

...- ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos!
sei que faço isso pra esquecer,eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora..."

A música é vento no litoral, legião urbana.

 

 



publicado por Juliana Correia às 16:41 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Vinicius a 3 de Abril de 2007 às 17:23
a musica eh linda e o texto eh mais lindo ainda..
eu nao sei, posso estar exagerando, mas eu acho que voce deveria escrever um livro de contos. A cada conto, a cada nova historia, fico ainda mais impressionado com a forma com que voce escreve...

parabens ju
beijo do seu eterno fã =*


De Larissa a 3 de Abril de 2007 às 23:53
eu nem sei o q escrever...
se tds s tao bons e cada vez o meu vocabulario de elogios vai diminuindo...

simplesmente li, sonhei, vivi...
vc faz as pessoas sairem das cadeiras e entrarem na tela do pc...
mto lindo! (me senti numa praia ouvindo as ondas do mar...)

bjo minha linda! ;**


De peu a 4 de Abril de 2007 às 19:22
aaaaa vento no litoral. com cássia eller então. u.u


Comentar post

mais sobre mim
Setembro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


posts recentes

inferno astral

Descortinado

A arte do impossível.

Pouso.

Nanquim.

Brigitte Bardot

Sapatilhas.

Não é assim que a banda t...

Vulnerabilidade

História musicada auto-ex...

arquivos

Setembro 2010

Janeiro 2010

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

links
blogs SAPO
subscrever feeds