Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

- Alô? Oi. Sou eu. Tô te ligando daquela nossa mesa da nossa cafeteria, lembra? Tô ligando porque sou uma rídicula egocêntrica, tô ligando porque aqui você adora pagar meu café e eu sempre acho absurdo e faço um discurso sobre a autonomia feminina no século vinte e um... e tô aqui, há uns dez minutos, tentando abrir uma droga de garrafa de água e não consigo. Grande mulher, né? Liguei pra você pra falar pelos cotovelos. Sabe, quando eu consegui abrir a garrafa, me deu vontade de pedir bolo e eu pedi bolo.. e eu me lembrei de você, e me dei conta de que eu sou um bolo e você não sabe. Sabe aqueles bolos de casamento? Que tem aquela glace beeem dura? Essa sou eu a primeira vista.. mas aí, depois, por algum motivo que não vem ao caso - fome, simpatia por quem te oferece um pedaço, tédio na festa de casamento - você vai e come um pedaço, se livrando - é claro - da glace durona e ai você acha o bolo doce e fica super satisfeito de ter experimentado.. e acha o bolo um farsante, porque se você soubesse que ele era bom, você já tinha começado a comer antes e já teria desfrutado mais..mas aí, no meio desse pensamento você morde alguma coisa dura e dói e você fica com vontade de chorar!  Aí quando você olha, tem uma castanha bem grande e dura no meio do bolo, parece que você comeu parafuso, e você acha aquele bolo um salafrario de novo, porque ele era duro, ficou doce e depois ficou ainda mais duro sem nem te avisar... Eu sou assim. Descasca e me vê docinha, mas eu aguento as coisas. Mesmo. Não que ser castanha-parafuso não doa, dói, mas eu aguento. Não quero ser bolo de chocolate que todo mundo sabe fazer. É, não, eu sei, isso não leva a gente a lugar nenhum...Tô ligando pra dizer isso: eu não tenho certezas. A minha única direção é ilógica e infantil, é a minha única responsabilidade e o meu maior receio: eu preciso manter a minha sanidade mental, preciso estrututar as coisas de um jeito que façam sentido, que eu possa revê-las como naquelas pastas que a gente vai abrindo e vendo os arquivos em ordem linear, sabe? Eu só sou linear com a minha saúde mental, ou melhor, com a minha obsessão em mantê-la. Com o resto? Esquece. Não juro amor eterno. Não faço nhem-nhem-nhem. Não faço albúm de coraçãozinho. Não sei se eu sei fazer projetos juntos, no estilo de 'amar é olhar para frente juntos, e não um para o outro'. Eu sei achar umas músicas, sei fazer uns textinhos, sei pensar na pessoa. Não sei se sei me comprometer. Não sei dar segurança. Não sei arriscar. Não sei o que eu quero. Não saberia fazer nada com o que eu quisesse, ainda que soubesse o que quisesse. Não sei falar coisas interessantes. Não sei lutar por espaços. Não sei ser neutra e é um suplício para mim falar em códigos as coisas que eu quero gritar. Até as palavras andam de mal comigo, nem elas conseguem dizer o que eu quero dizer e entre as não ditas fica tanta coisa que eu podia empilhar a invisibilidade que se instaura e fazer uma ponte enorme que me levasse a qualquer lugar. Eu, posso até pensar, em escrever um livro. Um livro lindo, enorme, azul.. sobre a incomunicabilidade dos seres humanos. Você fala comigo e eu não entendo. Eu não falo com você e quero que você entenda. Você vai dizer que essa é uma construção que tem sentido? Não tem. Eu queria conseguir mentir pra você, te prometer várias coisas, saber que essas coisas aconteceriam, mas vê, eu não sei. Olha, cansei de falar. Eu queria muito ligar pra você mais vezes, estender essas conversas, mas as coisas se invetreram e agora com você eu não me sinto mais livremente eu.. e portanto, eu não vou te ligar mais. Um beijo. Juízo. Tchau.


música Catedral - Tchau

publicado por Juliana Correia às 15:23 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Vinicius a 6 de Outubro de 2008 às 23:30
Quando você começou a falar do bolo, tive uma leve impressão de estar lendo Senhor dos Aneis, tarde da noite. Tolkien falando de Rohan, dos cavalos, da população, das casas tão bem construídas, do castelo tão bem arquitetato. Enfim, foi uma leve impressão. Eu gosto quando se demora comentando sobre um elemento, acho que cria uma incrível riqueza para o texto e, obviamente, para a narrativa.

beijao.


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