Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Estou me sentindo a própria Lya Luft fazendo ensaios sobre temas abstratos (ou que não são possíveis [por enquanto] de comprovação cientifíca, ou pelo menos dos quais não tenho a mínima noção das pesquisas já feitas na área - mas é tudo que eu consigo escrever, um blog-diário-ensaio.)

 

Vim falar sobre escolhas porque tenho feito umas poesias sobre e tenho me sentido extremamente repetitiva, mas quando o que habita dentro de nós é uma única substância, fica complicado transformá-la em outra coisa. Não que eu tenha muito a dizer sobre, mas pelo menos direi com a exatidão que as rimas não sabem me proporcionar.

Se escolho um livro de Isabel Allende nas prateleiras da saraiva, obviamente estou renunciando a um livro da Agatha Christie, do Bauman ou até de Drummond. Apesar de pautar as escolhas no meu gosto, não necessariamente desgosto de algum dos autores, ou gosto mais de outro - apenas escolho de acordo com o momento, com a possibilidade que minha consciência me dá naquela situação experimentada.

 

Como assim? É fato que nossa conciência é limitada - afinal não podemos estar cientes de tudo que sentimos, de tudo que o mundo nos oferece, de como os outros estão reagindo a nós e de tudo o mais - portanto, sempre, em alguma medida, com relação a algo, estamos mergulhados resignadamente na nossa ignorância escolhida. Escolho um filme e deixo de ver outro, escolho um livro e desconheço ler outro, escolho um parceiro e passo a ignorar a pluralidade de outros posíveis que me cercam. Escolher é renunciar, mas ter consciência das nossas escolhas é também ter o poder de contextualizá-las, de (re)pensá-las, (re) elabora-las etc.

 

É MUITO mais fácil e mais cômodo ficar resmungando num canto do sofá sobre como a vida é injusta conosco, sobre como as pessoas não nos entendem, os outros não nos respeitam, as notas não correspondem ao nosso estudo, etc. Mas, sobre isso, sobre esta percepção/comportamento/tratamento que atribuímos ao outro, há algo que possamos fazer para contornar? Penso que não. O que nos é possível de mudança é o que somos, e se escolhemos não mudar, estamos também escolhendo manter esta vitimização e suas consequências. Nem tudo que é mais fácil é melhor (quase nada, para ser bem sincera).

Mas aqui falo de escolhas possíveis, porque as impossíveis são apenas mais uma variação da prostração diante da vida - não adianta ficar resmungando que quer ser 15 cm mais alta para ser modelo, quanto a isto não há o que fazer, mas daí escolhe-se projetar na vida um sonho inconcretizável ou batalhar para alcançar algum outro possível. Com relação ao que não é mutável, ainda nos cabe decidir o sentimento que vai reinar - amargor ou resiliência?

 

Escolher não é fácil e as vezes passamos batido até de entender que estamos escolhendo e que não estão escolhendo para nós. Já disse Jung "sou uma pergunta colocada ao mundo e preciso fornecer minha resposta, caso contrário, estarei reduzido a resposta que o mundo me der." Se seu namorado foi grosso ontem, é evidente que ele tem culpa, mas o que m você também tem? A parte que deixa ele interferir tão intensamente no seu senso de humor, a parte que não soube desprender que não era com você? No fim, você escolheu se sentir assim, ou se sentiu impulsinado a. Ou vai ficar reduzida ao sentimento que ele te impor?!

 

Nada mais do que conjecturas. Quem entendia de existencialismo era Sartre. Eu só cansei de me lamentar dos enlaçes da minha vida que não fluem como eu gostaria - alguma culpa nisso eu devo ter, não é possível - e comecei a me policiar. Olhe ao redor, com certeza não te faltarão vítimas de amor não correspondido, famílias opressoras, etc...

Nem tudo nos pode ser condicionado, mas sempre podemos nos condicionar.

 

Já disse Huxley: "não sou aquilo que fazem comigo, sou o que faço com o que fazem comigo!"

 

Refletir sobre isso pode levar a loucura ou a sanidade.

 

Escolha.

 

 

 

 

 


música Ney Matogrosso - Veja bem meu bem

publicado por Juliana Correia às 15:04 | link do post | comentar | favorito

5 comentários:
De Nina a 26 de Maio de 2008 às 23:21
Nós, humanos, temos a fuga para amenizar nossa culpa nos fazendo de vítima. Esse sentimento, para mim, está quase, senão no mesmo, patamar da pena. Não gosto de sentir pena, inclusive de mim.
Uma vez me disseram que a vida é ação e reação. Tudo que chega à você está de acordo com aquilo que vc fez. Não discordo, acho que somos aquilo que fazemos, nossas escolhas. Somos aquilo que escolhemos, podemos até pensar diferente, mas só pensar não nos faz o presente.
Tudo começa com o policiamento dos nossos pensamentos, um desafio bem complicado no início que acaba virando uma rotina quase imperceptível por nós depois, e depois de policiar nossos pensamentos, estaremos expandindo para nossas ações.
Não quero ficar livre de escolhas, nem tenho medo. O erro faz parte do que eu sou: uma humana em transição.
Estou tentando ser uma mudança para meu melhoramento íntimo. Quem sabe depois eu consiga influenciar o meio ao invés dele à mim.
Contudo, não sei se após tantas reflexões e resumos nas minhas palavras aqui eu possa dizer se sou loucura ou sanidade. Aceito apenas a condição de ser assim: eu. Amando-me nos meus defeitos e qualidades... Tentando sempre não ser egoísta para assumir meus erros.

Adorei o texto, aliás, ele me fez refletir bastante. Acho que deu para perceber. ;)


De Vinicius a 27 de Maio de 2008 às 01:24
Por isso que nao procuro pensar nas escolhas que faço, pra nao ficar mais louco do que já sou. Eu acho que as escolhas fazem parte das nossas vidas e, por isso, devemos saber lidar com isso.

Nem sempre a gente pode escolher aquilo que queremos porque pensamos que esta mesma escolha implicará em algo que nao queremos mais na frente. É dificil prever isso, mas a escolha passa por uma série de coisas triviais, que cabe a cada qual.

No mais, acho que é isso.


De A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie a 27 de Maio de 2008 às 01:37
A propósito de Agatha Christie, convido a todos para conhecerem um blog recém-lançado sobre a Dama do Crime:

A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie
http://acasatorta.wordpress.com

Um abraço.
Tommy Beresford
http://cinemagia.wordpress.com



De Mila a 29 de Maio de 2008 às 20:49
a vida é uma escolha constante do mais simples como o que vou comer no café da manhã ao mais difícil quando se trata de coração, de pura emoção. eu particularmente penso demais e isso me atrapalha em algumas escolhas que tem que ser sentidas sem pensar demasiadamente. ;)


De Helio Lambais a 1 de Junho de 2008 às 16:19
é pequena... seu poeta está sem inspiração ! =(


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