Domingo, 2 de Março de 2008

"- O que você faria no meu lugar?"

Era enfim ali o momento que a pergunta caia. Eu já vinha esperando por ela, por conhecer sua notória previsibilidade, afinal, eu também passara vários anos sentada no divã procurando minhas próprias respostas. Respeitei a pergunta e achei até natural - não é natural a ansiedade de querer saber o que os outros fariam em nosso lugar? se vêem soluções e nuances que desconhecemos? se quem tanto nos ouve, saberia solucioná-los? não seria também quase uma provocação, como quem diz "o que mais eu poderia fazer então, dr. sabichão?" não seria essencialmente um pedido por uma chance de reavaliarmos o que estamos fazendo, se podemos fazer melhor, um abrir de olhos para ângulos novos?  Por outro lado, o perigo da pergunta é a ilusão. A ilusão de passar as escolhas para outro fazer em seu lugar e a ilusão eminente de encarar qualquer resposta como uma receita mágica que deve ser seguida passo a passo ao pé da letra. Ambas são perigosas - para uma terapia bem sucedida é necessária a compreensão do indivíduo como mentor de sua vida, responsável por suas escolhas, seus caminhos e as consequências e renúncias envolvidas.

Ao considerar todas as vertentes, resolvi ser criteriosa, porém sincera:

- Ao me perguntar isso Ana, você espera que eu lhe diga o que eu faria na sua posição, o que eu faria se a situação acontecesse na minha vida ou que eu ofereça uma solução confortável e palpável para o incidente? Porque, não tenho soluções nem respostas prontas e, na minha opinião pessoal, não sei se elas são possíveis senão construídas...e tampouco me sinto apta a pensar no que faria em seu lugar, tivemos histórias, criações e transmissões de valores diferentes, portanto nossos olhos não podem nem sequer contextualizar o acontecido da mesma forma...

-Não Patrícia, eu queria mesmo era saber como você lidaria com isso na sua vida...como se isso tirasse você do pedestal de terapeuta e trouxesse para a natural possibilidade de crise...

Ana tinha problemas extremos em expressar confiança nos relacionamentos e por isso tinha começado a terapia. Agora seu noivo a tinha deixado e ela se sentia mais insegura e desconfortável do que nunca.  Achei que poderia ser saudável respondê-la com sinceridade e resolvi arriscar, mesmo que a fragilidade pudesse desencadear uma infinidade de respostas, certamente poderíamos elaborar como ela se sentia perante minha confissão, o que ela andava fazendo realmente por si e nosso relacionamento a partir disto.

- Se isto acontecesse comigo Ana, penso que eu faria o que costumo fazer nas horas díficeis. Mergulharia no autoconhecimento, intensificaria a terapia, me daria mais horas para fazer coisas que eu gosto e me relaxam, buscaria arduamente a espiritualidade, respeitaria minha solidão e procuraria priorizar os poucos amigos que sei que gostam de mim como for e como sou, mesmo que eu repita a mesma história incontáveis vezes, que eu fique insegura e pessimista e queira contagia-los, que só chore e nem sequer faça algum sentido ou que insista em idéias absurdas - saber que ainda assim alguém é capaz de ter afeto sincero por mim é extremamente reconfortante e encorajador. Ainda mais quando alguém me deixa...E você Ana, como se sente perante tudo isso que eu falei? Como se sente por eu ter confiado a você algo tão particular meu? O que você tem feito para superar, para se cuidar? O que você pode fazer por você?"

 

 


música Los Hermanos - Conversa de Botas Batidas

publicado por Juliana Correia às 22:22 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Mila a 3 de Março de 2008 às 00:05
o mundo pode nos virar as costas e teremos que sentar em nosso divã e seguir...sempre.
tudo que você escreve é maravilhoso
e este conto não esta diferente.

;*


De Vinicius a 3 de Março de 2008 às 22:33
É exatamente dessa forma que o roteiro daquele seriado que te falei, "In Treatment", toma forma e começa a desvendar a vida dos pacientes que lá vão ter uma sessão de terapia.

Em questão, o seu texto daria sim um bom roteiro, um bom script, eu diria. Ele tem os elementos necessários para se criar uma história, bastando para isso, rechear com um pouco mais de detalhes. Se você for ver "In Treatment", acho que conseguirá se enxergar mais na psicologia. Sei que falo isso como um leigo, mas acho que o seu texto tem tudo a ver com a proposta da série.

Beijos!


De Rafael a 4 de Março de 2008 às 07:12
Meu cognitismo não tem muita capacidade para internalizar seu texo pois é tão profundo que penso as vezes que ate sou i ncapaz de te entender. Seu texto, sua forma de escrever, são coisas geniais(eu deveria ter usando ponto e virgula nos termos anteriores?) mas voltando ao assunto. deve ate se surpreender com um post meu aqui, mas venho te dizer que voce é capaz de ir e pode ir aonde quiser!
bjuuuus ju!


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