Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

" - Mas é um absurdo você estar chorando assim, por isso!

- Mãe, seja razóavel. Estamos falando de sentimentos, não de realidade. Não existe absurdo no que se sente.

- E também não existe absurdo em chorar sem motivo.

- Mãe, nada que alguém possa fazer é sem motivo...

- Ele disse que ia embora? Ele disse que gostava mais dela do que de você? Ele disse que tinha outra? Ele disse que já não sentia a mesma coisa quando te via, quando te tocava, quando pensava em você, na vida dele com e sem você, quando te beijava? Ele disse algo?

- Não mãe...

- Então é sem motivo!

- Já lhe ocorreu que o não dito pode doer tanto quanto o dito? Já lhe ocorreu que eu o conheço o suficiente para interpretar silêncios ou respostas evasivas? Já lhe ocorreu que em questão de sentimento, nada é tudo e se aflora na pele, a gente se arrepia por nada e chora porque está mesmo transbordando emoção? E emoções mal-resolvidas, porque emoção apaixonada não anda sozinha, dá um passo logo pensando e esperando ansiosamente pela companhia da perna do objeto de desejo. Não saber pode doer tanto quando saber.

- Isso é loucura. Se ele tivesse outra - terminaria com você ou lhe diria. Se ele não gostasse mais de você, terminaria e lhe diria. Se pra ele não tivesse mais a mesma graça, será que ele não demonstraria? As vezes eu acho que você gosta de sofrer, Amália...

- Sentimento é que nem flor mãe, tem pétala macia e espinho. Tem altos e baixos, compreender isso pode ser maduro, mas nem sempre é mão na roda. As vezes a fase é difícil, a distância se instala, as brigas ganham forma e constância e ainda assim ninguém vai embora - porque, romanticamente, ninguém quer ir embora - isso não significa que esteja bom, nem que vá ser permanente a vígilia em torno da relação. Isso, também é caminhar sobre a dúvida. Eu sinto que pra ele estamos desbotando como foto velha, e não é pelo que ele diz, é pelo que ele dizia e já não diz. É sutil mãe. Sentimentos são sutis, não fazem sentido, quantas vezes eu quis ele muito perto e pedi pra que ele fosse embora e não voltasse nunca? Quando eu mais quero beijá-lo, espero pacientemente que ele me beije, porque tenho medo de que ele não deseje aquele beijo tanto quanto eu. Quantas vezes eu pensei em coisas que eu não deveria pensar e fiquei sozinha matutanto pensamentos otimistas que cortassem a onda? Não posso ligar pra ele de cinco em cinco minutos, sentimento não se discute, vai se vivendo até aonde der, até aonde for...

- E porque esse filme triste na tv, esses livros teóricos na estante, esse choro?

- Porque? Ahh....porque não saber também dói, não é? Não saber se o cheiro que está na minha roupa também ficou na dele, se as preocupações e medos que eu tenho também não o atingem, se a minha frieza e dúvida corrompe a certeza dele.. É esse não saber mesmo que eu não sei me entregar mãe; e a vida é feita de não-saber, mesmo que ele me pedisse em casamento - e isso aparentemente expressaria que ele gosta de mim e quer compartilhar uma vida - eu ainda saberia ter dúvidas. Isso não é um problema dele, é uma questão minha, eu preciso controlar aos poucos os receios - porque as coisas só são sólidas na base da confiança e da credulidade. Por isso o choro, porque eu sei tudo isso, mas não sei espantar esse pensamento de que me ver talvez já não tenha feito-o sorrir tanto quanto já soube fazer...

- Me deixa te fazer um bolo de laranja, te fazer um cafuné? Ele parece um bom rapaz, eu gosto tanto de te ver repensando essa amargura besta, abrindo os olhos pra o mundo de um outro jeito, me perguntando se você tem razão em ficar chateada ao invés de tomar seus sentimentos como centro do mundo... Não perca isso pelo medo, ter medo de viver as coisas e ser feliz é a melhor forma de evitar a felicidade...

- Eu sei mãe. Juro que tô tentando.

- Liga pra a terapia, marca um horário a mais...não sei como cabe tanto pensamento que você guarda nessa cabeça, e tem uns que nem fazem sentido... Pra mim, se tá junto gosta e você tem que confiar - quando não gostar mais, separa. Essa coisa de vocês tem muita entrega pra ser absolutamente a toa, vocês são jovens...não deve ser a coisa mais séria do mundo, mas ninguém se envolve por diversão..envolvimento traz consequências, sabe? E você sabe, e eu espero que ele saiba...Mas, certamente o filosofo suiço do Amor Líquido não vai te responder o que você quer, não vai te ligar dizendo que sente saudade e nem que apesar da dificuldade de expressar isso, sente muitas coisas com/por você...

- Obrigada mãe. Você é a melhor. Eu aceito o colo."



publicado por Juliana Correia às 21:53 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Helio Lambais a 5 de Fevereiro de 2008 às 17:32
O não dizer realmente é cruel, as respostas não dadas, os nossos "olas" em vão, nossas esperaças que permanecem a data palavra...


... não dita!


Bjus


De Mila a 5 de Fevereiro de 2008 às 23:52
O meu blog que é extensão do teu, afinal eu aprendi a escrever com você; te admiro em tudo, em cada palavra, em cada gesto...


De Vinicius a 6 de Fevereiro de 2008 às 04:40
Sabe, fico pensando: quantas filhas gostariam de ter um dialogo como esse com as suas respectivas mães?

Que bom que você tem uma mãe que faça isso pra voce. Adorei o texto. Soa especial.


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