Sexta-feira, 16 de Março de 2007

"Você vai ser papai". Quatro meses atrás, Sandra achava que esta era a pior coisa que ela poderia dizer a Hugo. Como dizer a um jovem namorado, baterista de banda e cheio de sonhos, que ele teria que arcar com aquele pequeno bebê? Seu amor por Hugo era protetor, ela o via como um menino precisando de colo, carregaria o mundo nas costas para não precisar vê-lo submetido a fardos. Típico amor de mulher, típico amor de mãe. Ela chorara várias noites, sentiindo antônimos entre si - um amor enraizado enlaçando-se no ventre e um medo enorme da aparente reação alheia.

Em um ímpeto de coragem, deitada com ele na grama do jardim, descobrindo desenhos nas nuvens, ela lhe disse a tão temida frase. Entre lágrimas, soluços e bruscos silêncios. "Você vai ser papai, Hugo." Corria em suas veias o medo. E se ele sugerisse um aborto? Ela não estava disposta. E se ele fosse embora? Ela o amava. E se gritasse com ela? Mania típica dos homens. Hugo a surpreendera. Não com sorrisos doces ou palavras de amor e apoio, mas sim com o silêncio surpreendente de quem vive a alma alheia, conhecendo-lhe os segredos e as dores. Aquela dor - do aborto - ele não apoiava. Seguiram aos tropeços o caminho das descobertas ("olha, chutou!"), das confissões ("mãe, estou grávida"), dos medos ("será que está tudo bem com o neném?"), das alegrias ("é um menino!"), dos preconceitos ("olha, tão jovens...") e das mudanças. ("você já olhou meu corpo no espelho, Hugo?"). Agora, sentada no cemitério, ela revivia a dor e a delícia de cada momento. Já havia chorado muito, questionado Deus e amaldiçoado o mundo - porque aquilo estava acontecendo com ela? Porque depois de enfrentar tantos olhares de censura, de romper a relação com seu pai, passar noites em claro - ora deleitando-se com o crescer da barriga, deslizando e imaginando o rosto de seu filho, ora enjoada e triste, se sentindo sozinha em um mundo muito grande, aquilo estava acontecendo? Para quê, meu Deus, esperar por um João que vagava inerte e falecido? Para quê optar sempre pela vida e continuar tendo a morte imposta? Acariciava a barriga e sabia que ali havia tudo e ninguém. Morto. Seu filho, seu amor, morto. Dentro dela. Matando-lhe assim também as crenças, a fé e a coragem em tudo de bonito. Como compartilhar aquela dor que ninguém entenderia? Como poderiam imaginar? Ela era uma mulher, uma mãe, dezoito anos, que enterrava seu bebê. Ali, naquela lápice, naquele fim de tarde, ela entendeu que jamais seria a mesma. Estaria nela, eternamente, mais do que a morte e a dor, mas a desilusão do não acreditar. A perda de um amor que nem nasceu ia para sempre queimar-lhe o peito. "Você não vai ser papai, Hugo". Como dizer a um jovem pai, baterista de uma banda e cheio de sonhos, que seu filho não nasceria?

 

 

 

(é, algum dia eu acabo pegando o jeito com os contos...)



publicado por Juliana Correia às 03:37 | link do post | comentar | favorito

2 comentários:
De Vinicius a 16 de Março de 2007 às 21:57
se é que voce nao ja pegou ju... ta muito lindo o texto e a historia muito triste e que ate comove.

beijao =****** continua escrevendo, sabe que sou teu fã numero 1 neh?


De larissa a 17 de Março de 2007 às 21:40
tem palavras pra isso!? tá perfeito garota!!
te adoro!!! =*


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