Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Um maço de cigarros e essa folha de papel me acompanham. São três da manhã. Não, eu não acho nada disso racional, mas seria ainda mais fraco oprimir isso para me fazer de forte. Talvez a minha força seja a coragem aturdida de aceitar as coisas como são e o jeito que eu me sinto perante elas serem. Talvez não, você diria. Vejo você claramente resmungando sobre esse meu jeito hipotético e dúbio de ver o mundo. Tanto faz.

Tanto faz que eu já nem saiba para que digito tanto nesta máquina de escrever. Mentira óbvia : eu sei. Eu sei demais. Eu sei com aquele jeito que tanto te irrita, aquele meu jeito de sentir que você tanto repudia - com os olhos, com os pensamentos, com a pele, com as entranhas. Eu viro esse emaranhado arraigado de tanto sentir. Tudo, tudo que é meu sente você e como eu me sinto com relação a você agora. Drama. Tolice. Exagero. Eu quase posso ouvir a sua voz me dizendo estas coisas. Mas, é assim que se sucedem as coisas. Eu ando na rua procurando a placa do teu carro. Eu releio as tuas cartas. Eu sonho com você - nas raras noites que consigo dormir.

Minha vida não sucumbiu, não parou. Pelo contrário até. Nunca escrevi tantos roteiros como agora, nunca tive tantos compromissos ou tão boas companhias na jornada como hoje. Mas, nos intervalos da minha existência, eu simplesmente fico pensando em você, não grandes feitos nossos ou boas perspectivas do que eu diria se te encontrasse, eu realmente me concentro nesses detalhes tão teus que eu amo e odeio tão igualitariamente.

Engraçado, eu não sou como os outros apaixonados. Não imagino um grande futuro para nós - não tivemos esse grande passado que as vezes invade as minhas recordações. Nos amamos muito, eu sei - mas não como, de vez em quando, eu quero lembrar. Não eram só rosas ou só sorrisos, não era um arco íris de amor infindável. Não era. E talvez por isso tenha me marcado tanto - era um relacionamento de verdade. Com problemas, entraves, dilemas, alfinetadas, choros, palavrões, silêncios bruscos aonde deveriam haver palavras, medos e tudo o mais com um quê de vida real. Você não é fácil. Eu não sou fácil. E ainda assim eu te amo tanto, ainda hoje, acho que por isto, por a gente ter realmente acontecido e por eu ter intrisecamente vivido a gente.

Queria poder jurar que não te escreverei mais - e além - que não escreverei mais sobre você, para você, de você. Mas, juro solenemente que vou me esforçar para que a sua pacata vida não seja importunada pela minha presença, afinal, você optou por isso, não foi? Eu, com este meu jeito menino, ainda preciso aprender a levar as escolhas alheias mais a sério.

Acabei de fumar meu último cigarro. Já escrevi e reescrevi este último parágrafo incontáveis vezes, sem saber o que exatemente eu poderia dizer nele. Nada, nada do que eu disse ou do que eu poderia vir a dizer consertaria as coisas ou nos daria um novo tempo. Sou totalmente impotente frente a isso. E não me sinto tão desconfortável assim. Você é uma responsabilidade profunda demais para que eu assuma sozinho. Sou humano, falível e debilitado. Você, com esse seu jeito "absoluta" designado pelo zodíaco,tão signo teu, não me tolera. Essas minhas relativas verdades batem de cara com as suas absolutas certezas, esse meu jeito de querer novas chances é desprezado pelo seu orgulho de ambicionar estar sempre certa e pela sua impossibilidade de voltar atrás ou de começar de novo, mesmo - pois isso seria o mesmo que dizer que você se arrependeu do que você mesma lhe escolheu. Me despedir como?

Eu te amo. E sim, eu sei que isto não vale mais nada. Ou vale tão pouco quanto o pouco que poderíamos fazer com isso, caso lhe coubesse vontade.



publicado por Juliana Correia às 16:53 | link do post | comentar | favorito

4 comentários:
De menina imaginária a 3 de Setembro de 2007 às 23:40
Obrigado pelo teu comenta'rio :)! Sa~o palavras assim amigas q eu precisava de ouvir naquele momento :)

Um beijo


De Amadan a 4 de Setembro de 2007 às 03:56
Esta é a carta que eu por inúmeras vezes não escrevi. Não por falta de vontade, não por falta de coragem e muito menos por falta de palavras doídas.
Não as escrevia pelo simples facto de que ninguém (o outro lado da moeda) ambiciona receber algo assim.
Quando este tipo de discurso nos surge do peito, é porque o elo de ligação entre nós e o outro foi já destruído, existindo só uma meia-ponte que leva a nenhum lado.
Mas... e então o desabafo?
Sim, é verdade. Uma carta assim serve também como desabafo. Tentamos com ela dar forma física à dor que nos consome. Mas a dor não some assim de repente, por muitas palavras que possamos articular a dor é persistente e ela mesma magoada em si.
Foi por isso que resolvi passar a escrevê-las. Sabendo da existência da meia-ponte, nunca as enviei. Em vez disso, logo que as terminava queimava-as, soprando depois as cinzas ao vento, sussurrando uma pequena oração:
“Vai dor! Vai e não voltes nunca mais.
Que assim se faça e que assim aconteça”
Estranhamente, ou talvez não, tudo parecia melhorar e a meia-ponte transformava-se de novo num horizonte.


De Mila a 4 de Setembro de 2007 às 22:21
como tudo que dona Juliana Correia escreve está belíssimo e reflexivo. Beijos.


De nela_mundo a 3 de Outubro de 2007 às 16:48
Muitas vez ao escrever o que vai no coração nos ajuda, obrigada por este texto belo


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