Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

Paloma olhou o apartamento. Em outro tempo ali viveram tantos sonhos – que ela julgava eternos – mas agora era só um apartamento vazio. Cada canto contava uma história de amor, mas naquele dia os cantos não diziam nada. Ela fixou o olhar num pedaço de papel de parede descascado pela infiltração e lembrou dele. Eles também tinham descascado. Se conheceram numa boate, ele amigo da amiga dela, lindo, perfumado, charmoso. Chegou nela com um sorriso e dançaram até cansar. O coração palpitava a cada olhar cruzado, cada palavra sussurada. Era ele, ela sabia. Dois meses depois estavam namorando. Gostavam de futebol, vinho, jazz, Pablo Neruda e cinema europeu. Eram como uma engrenagem que ao se tocar funcionava perfeitamente. Seis meses atrás, ela pisara no apartamento pela primeira vez. Fizeram amor no balcão da cozinha. Penduraram uma placa de “bem-vindo ao lar” na porta. Escolheram o papel de parede juntos. Naquela sala receberam os amigos, fizeram founde, dançaram bolero. Até que naquela cama ficou faltando ele, que já não parava mais em casa. Ele alegava muito trabalho no fórum, ela questionava que trabalho duraria até dez da noite. Foi a primeira rachadura na parede. Mas ele não estava lá para consertar. A vida foi correndo e os risos não eram mais ouvidos no apartamento. O vinho de antes, era agora copo quebrado pelo chão. Ela, como fotógrafa que era, o avisou que ia viajar. Dessa vez, ele não a rodopiou no ar, nem a carregou até a cama numa chuva de beijos. Apenas assentiu, cabisbaixo. No domingo, ao chegar antes do previsto em casa, ela sorriu para a plaquinha, disposta a fazer dali um lar novamente. Girou a chave e viu. Viu aquilo que nenhuma mulher que ver. Um emaranhado de corpos nus e suados no sofá-cama. Seu filme francês favorito passando no dvd. Sua cabeça rodava, as coisas tremiam nas suas mãos. Seu homem, sua casa, seus sonhos – outra mulher. Eles levantaram apressados, num misto de surpresa e medo. Ele, se vestindo, falava coisas que ela nem ouvia mais. Ela entrou no quarto e trancou a porta. Chorou colocando as coisas dele na mala, chorou rasgando as fotos,chorou enterrando suas crenças. Ao sair com a mala dele, o encontrou chorando no sofá. Só havia silêncio. Ambos sabiam que não havia volta ou perdão, alguém havia se infiltrado entre eles, e ainda escorria nos dois corações. Depois, ele tentou voltar. Ela não quis. Foi despertada da lembrança pela campainha da porta. Era o corretor de imóveis com um casal jovem e sorridente. Ela deu um sorriso amargo, retirou a placa da porta e foi embora sem olhar pra trás.

 

 

 

(ps Momento flashback do meu primeiro conto sim, porque de todos ele continua sendo um dos meus favoritos. E tem mais, ando pensando muito nisso, nessa irresponsabilidade que assumimos na vida do outro...Estou escrevendo sobre isso e jajá estará aqui!)


música Quarteto de cinco - Última tentação

publicado por Juliana Correia às 16:59 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Amadan a 14 de Agosto de 2007 às 18:32
A autonomia social é algo que não existe. Certo que no Mundo, há algums que durante um certo período conseguem manter-se verdadeiramente independente e solitários, mas acabam de uma maneira ou de outra por afectar e serem afectados pela sociedade próxima.
A vida a dois não pode ser, por definição, uma vida autónoma. Todas as nossas acções acabam por influenciar a do nosso parceiro(a). Por isso mesmo, o requisito fundamental é a honestidade, pura e simples.
Quando duas pessoas decidem fazer uma vida em conjunto estão dizendo: Amo-te; não posso viver mais longe de ti; quero adormecer e acordar contigo; sem ti a vida não faz sentido, etc.
Mas o que está por detrás é um pouco mais complicado. Na verdade estamos dizendo ao outro que nos consideramos suficientemente responsáveis para tomar nas mãos um boa parte do seu caminho de vida.
Quem é honesto não pode dizer isso em plena consciência. A nossa condição "divina" é quase sempre ultrapassada pela animalidade visceral.
No fundo é tudo um engano dos sentidos, tomamos o incerto como certo, confundimos paixão com Amor, misturamos prazer com plenitude.
Não existe ninguém sem a sua dose de complicadores, e estes são sempre passados aos que nos rodeiam e que por inconsciência confiam em nós.
Penso que nos falta essa consciência para sermos verdadeiros.


De Mila a 14 de Agosto de 2007 às 18:40
Pois saiba que é um dos meus favoritos também.


De Thamiress5 a 24 de Março de 2009 às 18:32
Esse conto é maravilhoso!! Tá de parabéns :)


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