Segunda-feira, 12 de Março de 2007
Paloma olhou o apartamento. Em outro tempo ali viveram tantos sonhos – que ela julgava eternos – mas agora era só um apartamento vazio. Cada canto contava uma história de amor, mas naquele dia os cantos não diziam nada. Ela fixou o olhar num pedaço de papel de parede descascado pela infiltração e lembrou dele. Eles também tinham descascado. Se conheceram numa boate, ele amigo da amiga dela, lindo, perfumado, charmoso. Chegou nela com um sorriso e dançaram até cansar. O coração palpitava a cada olhar cruzado, cada palavra sussurada. Era ele, ela sabia. Dois meses depois estavam namorando. Gostam de futebol, vinho, jazz, Pablo Neruda e cinema europeu. Eram como uma engrenagem que ao se tocar funcionava perfeitamente. Seis meses atrás, ela pisara no apartamento pela primeira vez. Fizeram amor no balcão da cozinha. Penduraram uma placa de “bem-vindo ao lar” na porta. Escolheram o papel de parede juntos. Naquela sala receberam os amigos, fizeram founde, dançaram bolero. Até que naquela cama ficou faltando ele, que já não parava mais em casa. Ele alegava muito trabalho no fórum, ela questionava que trabalho duraria até dez da noite. Foi a primeira rachadura na parede. Mas ele não estava lá para consertar. A vida foi correndo e os risos não eram mais ouvidos no apartamento. O vinho de antes, era agora copo quebrado no chão. Ela, como fotógrafa que era, o avisou que ia viajar. Dessa vez, ele não a rodopiou no ar, nem a carregou até a cama numa chuva de beijos. Apenas assentiu, cabisbaixo. No domingo, ao chegar antes do previsto em casa, ela sorriu para a plaquinha, disposta a fazer dali um lar novamente. Girou a chave e viu. Viu aquilo que nenhuma mulher que ver. Um emaranhado de corpos nus e suados no sofá-cama. Seu filme francês favorito passando no dvd. Sua cabeça rodava, as coisas tremiam nas suas mãos. Seu homem, sua casa, seus sonhos – outra mulher. Eles levantaram apressados, num misto de surpresa e medo. Ele, se vestindo, falava coisas que ela nem ouvia mais. Ela entrou no quarto e trancou a porta. Chorou colocando as coisas dele na mala, chorou rasgando as fotos,chorou enterrando suas crenças. Ao sair com a mala dele, o encontrou chorando no sofá. Só havia silêncio. Ambos sabiam que não havia volta ou perdão, alguém havia se infiltrado entre eles, e ainda escorria nos dois corações. Depois, ele tentou voltar. Ela não quis. Foi despertada da lembrança pela campainha da porta. Era o corretor de imóveis com um casal jovem e sorridente. Ela deu um sorriso amargo, retirou a placa da porta e foi embora sem olhar pra trás. E esse é meu primeiro conto :)


publicado por Juliana Correia às 15:55 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Vinicius a 12 de Março de 2007 às 20:35
ow, ta afim de me dar um autografo nao? Acho que já escrevi isso no msn. O conto está, sei lá, nem tenho muitas palavras, tá muito bom. Que orgulho dessa guria =**** beijo


De Camila a 12 de Março de 2007 às 23:41
Nossa,que conto lindo!Você tem um grande futuro pela frente,nota-se isso por este primeiro conto.Situação complicada a da personagem,mas com uma grande moral no fundo.
Um beijo Ju.


De diego a 13 de Março de 2007 às 03:29
Parabéns Ju. sucesso!


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