A gente passa a vida inteira querendo uma coisa, dizendo como ela deve ser, sugerindo de coisas óbvias até as mais superficiais - (óbvio) um sorvete cremoso, de morango, com castanhas (superficial) ; (óbvio) um homem digno, decente, inteligente, carinhoso, gosta de caetano veloso (superficial) ; (óbvio) uma calça que veste bem, valoriza, combina com as coisas, tem bolsos (superficial) ; enfim, já deu pra entender o ápice da perfeição - como ela deve ser para nos fazer felizes. Mas quando a coisa acontece perfeitamente perfeita na nossa frente, seja num sorvete, seja num homem ou numa calça, o que é que a gente faz?
a) comemora loucamente a alegria da conquista b) morre de medo. Obviamente, letra b.
A me lenhar, me acabar, ser sacaneada, passada pra trás, ser enjoada, etc eu tô mais do que acostumada e com isso já sei lidar. Coisas boas e novas, que tendem a dar certo... nunca vi, nem comi, eu só ouço falar e não sei o que fazer com elas que não seja morrer de medo. Prontofalei.
O que cai por dentro
Não fica aquietado
O peito lamaçento
Refocila o estragado.
Ando, ando, ando
(circularmente)
pra ficar parado - estagnado.
Até quando?
Pilhas lado a lado.
Em-pi-lha-do.
Sou vítima de nada
Choro pelo avesso, ao contrário
O riso que ecoa na face
Como tinta nanquim é disfarce
Finjo não ser frágil pra poder ser frágil em paz.
Pra poder deixar pra trás ; o que não deixo pra trás.
...jamais.
Zeca Baleiro, Bigitte Bardot.
"a saudade
é um trem de metrô
subterrâneo obscuro
escuro claro
é um trem de metrô
a saudade
é prego parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar
a saudade
é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido
a saudade
é um trem de metrô
subterrâneo obscuro
escuro claro
é um trem de metrô
a saudade
é prego parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar
a saudade
é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido
a saudade
é uma colcha velha
que cobriu um dia
numa noite fria
nosso amor em brasa
a saudade
é brigitte bardot
acenando com a mão
num filme muito antigo"
Eu nunca dancei ballet - e acho que por isso, cresci um pouco menos fresca do que o resto das mulheres (desculpem bailarinas, desculpem mulheres). Apesar disso, eu sempre (enquanto adolescente) fiz projeções para uma eu-mesma futura, como uma moça bem vestida e de saltos altos desfilando com sua elegância casual por aí. Lenda.
Lenda, lenda, lenda.
Eternamente amada é a pessoa que colocou as sapatilhas na moda, que jogou em algum editorial de moda e disse que era tendência, que disse que combinava com tudo, que vestia os pés cansados com elegância - é que, quanto mais eu envelheço, mais eu fujo do salto alto. É, eu sei, também queria ser feminina, mulher-fatal, a-desejada, e tal.. mas o salto alto me dá preguiça demais. Entre conforto e beleza, eu e minha pouca vaidade, selamos um acordo silencioso: conforto. Entre a liberdade dos meus movimentos e o desejo de todos os homens fetichistas, olá liberdade de movimentos, bievenida ao clube! Tem sapatilhas lindas também, ué. De strass, de bolinhas, de coração, de couro preto e laços, sapatinho boneca de muitas cores. Pra todos os gostos. Obrigada senhor.
Eu sou do tipo que senta na grama pra conversar - sapatilhas são mais despojadas. Eu sou do tipo que dança com os amigos - sapatilhas prejudicam menos os pés deles. Eu sou do tipo que carrega o irmão no colo, minha coluna agradece as sapatilhas.
Outra vantagem das sapatilhas? Com elas, eu piso perto do chão. E assim sendo, o risco do tombo é menor. Com elas, eu sei aonde estou pisando, não me engancho nas armadilhas do terreno, não me elevo frente aos outros, não pareço superior. Só não calço as sapatilhas do ballet, porque, não tem jeito, eu bem que tento, mas esse rosa româncito parece que não gosta muito da minha companhia e sempre tem que me deixar com essa sensação de que eu sou uma farsa. Podia ser triste, mas eu nem gosto de música clássica, mesmo.
Ser pé no chão, definitivamente, nesse momento, é a minha maior tendência.
Se eu tivesse uma mesa no escritório, agora eu estaria retirando porta-retratos e limpando a área.
Se eu morasse com ele, estaria agora cobrando o 'neruda que você me tomou e nunca leu'. Ou 'passando com o portão sem fazer alarde, com a leve impressão de que já vou tarde, e levando no peito saudade'.
Se eu tivesse mais vergonha na cara, eu não estaria dizendo isso aqui. Eu sei. Mas, no fim das contas, a vida é sempre mesmo tão previsível. A gente é sempre tão previsível.
Agora a banda toca de outro jeito, tô tentando entender, tô tentando me acostumar, tô tentando assimilar: quando eu quiser muito pegar na mão de alguém pra não me sentir sozinha, eu já não poderei pegar na tua, terei de procurar a tua mão. quando eu tiver uma cantada de pedreiro ótima pra contar, eu já não poderei discar no seu número as gargalhadas, terei de procurar outro ouvinte. quando eu quiser te dar um beijo, eu já não mais vou poder te dar, ficarei na vontade. quando eu quiser dar uma lavada no stop em alguém, você já não será mais a vítima, eu não posso ganhar sem ter quem perca. agora quando eu quiser ficar sete horas no telefone, já não vai ser o seu estudo que eu vou atrapalhar. agora quando eu inventar apelidos doidos, nenhum caberá mais em você. agora quando eu descobrir que os seus artistas favoritos estão gravando músicas, eu não vou mais te avisar. agora quando chegarem cartas pelo correio, não mais serão de você pra mim. agora quando meu celular vibrar, não haverá nenhuma chance de ser mensagem tua. agora eu não vou mais contar os dias pra te ver, ficar feliz só de te ver. quando você me encontrar agora, será casualmente e você não vai mais tocar no meu rosto pra eterniza-lo na sua memória. o seu número que eu sei mais do que de cór, vou ter que esquecer. a sua janelinha no meu msn não será mais a favorita. quando aconter algo horroroso ou maravilhoso na minha vida, eu vou precisar tomar cuidado pra não sair correndo pra te contar. quando for o seu aniversário, eu não vou estar de chapeuzinho cônico na festa. eu nunca mais vou ter que mendigar pra você pelo-amor-de-Deus me acompanhar até alguma festa. eu nunca mais vou ser empurrada pra fora da cama na hora de dormir. não tem mais 'minha linda', nem gerbera, nem MAM as terças-feiras, nem sogra. não tem mais comemoração todo dia sete, não tem mais poesia despida no ouvido, não tem mais nossos códigos, não tem mais nada. não tem mais te ter, não tem mais contar com você, não tem mais você como figura central e importante que dá sentido as coisas e pros braços de quem eu corro pra dentro. não tem mais nós. ficamos a sós.
Já disse, sabia e certamente, Lenine, mesmo quando o mundo pede um pouco mais de calma e até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para. Fácil, não é. Desenlaçar duas vidas é sempre processo - mas de toda guerra, saem sobreviventes. Porque não sobreviver ao próprio processo?! Deixar a dor correr, ok. Prolongar a dor com coisas que só vão trazer mais dor, não, obrigada.
Agora, eu tenho que ir, com meu corpo, calma e alma. Que a vida não para mesmo. E eu tenho que apresentar um seminário.
[a saudade é um filme sem cor
que o coração insiste em ver colorido ~ ]
Do muito que eu li
do pouco que eu sei
- nada me resta.
Primeiro, ela dá o seu depoimento sobre o começo do fim:
"ELE CHEGA LIGA A TV PRA MIM
ELE NÃO QUER NAMORAR
NÃO AQUECE, NEM ME TIRA O AR
NÃO ME GANHA COM O OLHAR
ELE SAI E DIZ QUE JÁ VAI VOLTAR
ELE NÃO QUER NAMORAR
QUANDO CHEGA TÃO CANSADO, ENFIM
ELE NEM OLHA PRA MIM
MEU BILHETE ESQUECEU DE LER
O MEU BEIJO MARCA SÓ PAPEL
O SEU COLARINHO EM LINHO BOM
NÃO CONHECE O MEIU BATOM
EU QUERO MAIS, NÃO APENAS UM AMOR FULGÁZ
EU QUERO MAIS E VOCÊ TEM MUITO MAIS PRA DAR
EU QUERO MAIS, NÃO APENAS ESSE AMOR FULGÁZ
EU QUERO MAIS, NOSSO TEMPO a gente FAZ
HOJE CEDO OUVI NA TELEVISÃO
QUE O AMOR É QUASE ASSIM:
UM PRO OUTRO E OUTRO SÓ PRA SI
MAS EU TENHO OUTRA VERSÃO
JÁ PINTEI AS UNHAS DE CARMIM
PRA CHAMAR SUA ATENÇÃO
TEM PERFUME E LUVAS DE CETIM
PRA AUMENTAR A SEDUÇÃO
EU NÃO QUERO OUVIR OUTRO CHAMAR
QUE NOS TIRE DO NOSSO LUGAR
SÓ UM LINDO DIA AMANHECER
DE TANTO TE AMAR"
Depois, dando continuidade a história, ele conta a sua versão do capítulo seguinte:
"Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei
Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir
Mas, egoísta que eu sou,
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou
E não quis me separar
Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo
Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei
Ela falou: - Você tem medo
Aí eu disse: - Quem tem medo é você
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém
Ela me disse:
- Eu não sei mais o que eu
sinto por você. Vamos dar
um tempo, um dia a gente se vê
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo"
Resultado?
Já dizia Vinicius de Moraes, em sua maravilhosa "Regra três", "porque o perdão também cansa de perdoar..."
Músicas:
- [Ela] Eu quero mais, Gláucia Nasser.
- [Ele] Ainda é cedo, Legião Urbana.
. Preciso me acostumar com essa coisa que meus sentimentos agora tem horário comercial pra se valerem - não posso ser loucamente apaixonada na hora de apresentar um seminário, nem confusa ou triste nas vesperas de prova. Um beijo pra você, sistema capitalista de produção. E outro pra você, sociedade do conhecimento. Me add no orkut.
. Preciso aprender urgentementemente o que fazer comigo quando eu não sei o que fazer comigo. Preciso parar de ter essa cabeça de idéias que parecem um (como bem definitu Martha Medeiros no livro Divã) carro procurando vaga - roda, roda, roda, roda, incessantemente, não para e quando acha um lugar pra estacionar, logo vem o guardinha dizendo que ali o carro não pode parar. Preciso de descando da minha inconstância, da minha incapacidade de manter as idéias e os pensamentos estagnados, desse meu jeito de pensar sobre como os outros se sentem perante as coisas que eu faço.
-
Sem você, Arnaldo Antunes
"Para onde vou agora livre, mas sem você?
Pra onde ir, o que fazer, como eu vou viver?
Eu gosto de ficar só, mas gosto mais de você
Eu gosto da luz do sol, mas chove sempre agora sem você.
Sem você, sem você, sem você
Às vezes acredito em mim
Mas às vezes não
Às vezes tiro meu destino da minha mão
Talvez eu corte o cabelo
Talvez eu fique feliz
Talvez eu perca a cabeça
Talvez esqueça e cresça sem você
Sem você, sem você, sem você
Pra onde vou agora sem você?
Talvez precise de colchão
Talvez baste o chão
Talvez no 20º andar
Talvez no porão
Talvez eu mate o que fui
Talvez imite o que sou
Talvez eu tema o que vem
Talvez te ame ainda sem você
Sem você, sem você, sem você
Eu gosto de ficar só, mas gosto mais de você
Eu gosto da luz do sol, talvez eu mate o que fui
Talvez imite o que sou
Talvez eu tema o que vem
Talvez te ame ainda sem você
Sem você, sem você, sem você"
Chega a ser engraçado até, mas quando a gente está vivendo e se interessando pelas coisas acaba não se dando conta do ataque que é o cansaço se impregnando em nós. Eu sempre me sinto cansada - de algo, de mim, de todos. E muitas vezes me contento em saber do meu cansaço e não agir de acordo com ele. Mas chega, inevitavelmente, uma hora em que a questão se coloca. Numa vida que é a dois, quando um não quer andar e você não quer ficar parado, só te resta andar sozinho. Sentir a brisa. Olhar as folhas no chão. E saborear a culpa do cão de ter assumido o seu desejo e fazer o que você queria fazer, e só se comprometer com você. Tem uma hora que você fica muito cansado de tanto imaginar coisas e se fechar com seus pensamentos, mas quando você resolve sair pro mundo.. tudo que você vê te desagrada, nada que você vê te consola ou te encoraja. Não sei vocês, mas eu sou do tipo que faz da coragem combustível. Até se desenvolve dentro do motor, mas se não vier de fora, não ferve dentro e o carro não anda. Não sei dar outro jeito. Tô cansada de me sentir a babaca que estende a mão e oferece, oferece, oferece - coisas que, ora você recusa, ora você aceita. Quase nunca reconhece. Quase nunca se preocupa em pra variar, oferecer você e me permitir receber. Eu deixo faltar. Eu vou deixar faltar; acredite. Já cheguei num ponto de disposição que conversar me cansa e me irrita, e quando algo que eu amo me faz mal é porque é tempo de apelação. E tempo de apelação vai além da instauração da falta, ela vira eminência. Pra não me faltar em mim, preciso me faltar pra você. Dessa vez eu não quero me desculpar por isso. Eu tô cansada de me desculpar, de me explicar, de me policiar. Eu quero ganhar em troca, desculpe. Sou tão egoísta quanto qualquer ser humano. E não quero sentir muito por isso. Eu quero sentir muito e sem freio, mas isso são outros quinhentos. Se eu falo, pareço pedindo que você fala algo. Se eu não falo, fico no escuro sozinha com esses pensamentos, e concluo sozinha o que fazer com ele.
Eu tô cansada de não saber, também.
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